Update #9 ·
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Texto de Andre dos Santos

Em virtude de abordar hoje um tema diferente daqueles que têm animado as crónicas, e porque este não se presta de forma nenhuma a animações, também a crónica principia de forma diferente, com uma pergunta: e se o teu nome fosse João Maddi...eiros?

Uma vez que os leitores desta crónica são utilizadores da internet, e das redes sociais em particular, já se terão deparado com o caso do jovem de 24 anos, João Medeiros, que desapareceu após sair sozinho do Urban. Estranha-se a ausência de um comunicado de por parte do Grupo K, a qual só pode ser lida como uma consequência da pouca cobertura mediática conferida ao caso, que nem logrou gerar o receio de uma diminuição na afluência de clientes pelo facto de o nome da discoteca surgir ligado, de forma indireta, a um desaparecimento.

Este caso começa por despertar o meu interesse pela proximidade etária e, nesse sentido, por um certo grau de identificação. Mas também por acreditar que raptos com o objetivo de extorquir dinheiro, para o tráfico humano ou de órgãos não representam uma fatia relevante da criminalidade em Portugal e, por isso, restavam as hipóteses mais prováveis de acidente ou suicídio. Neste contexto, e fazendo fé que este tem adesão à verdade, não custará reconhecer que a Polícia teria pela frente um trabalho complicado. Mas se este pode ser um contexto pouco favorável ao apuramento do que terá acontecido ao João, não é desculpa para nenhum tipo de negligência. E é disso que se trata quando, ao colocarem o João na lista de desaparecidos, a Polícia Judiciária não consegue colocar uma fotografia associada à descrição. Fotografia essa que já circulava pelas redes sociais e, sem a qual, ser colocado na lista de desaparecidos não é mais do que uma formalidade que nunca permitirá a identificação da pessoa em causa.

Mas não só dos erros da Polícia se escreve esta história. Também a comunicação social andou mal na falta de divulgação do caso. Não quero, como já vi ter lugar, estabelecer uma relação de dependência entre o mediatismo do caso e o empenho da Polícia. Mas uma coisa temos de ter por verdadeira, se das buscas que estão a ser feitas para encontrar o corpo do João nada resultar e este nunca vier a aparecer, não se provando que foi um acidente ou suicídio, terá de pesar na nossa consciência coletiva que nem todos fizeram o que estava ao seu alcance na divulgação deste desaparecimento.

Pensar nas razões desta negligência torna esta reflexão ainda mais perturbadora: será que o João não dá audiências? Será que os pais do João não conseguiram mexer os cordelinhos certos para exercer pressão política para que se exija mais da polícia? Será que é pelo facto do João não se chamar John? Será porque as circunstâncias do desaparecimento associaram o João a um estilo de vida noturno que não se presta a uma vitimização condizente com as exigências do mediatismo? Não sei responder a nenhuma destas perguntas mas as que me custam mais não saber responder são: não ficará o João como outro Rui Pedro? Não poderemos nós ser o “João” de amanhã?

Não sei se estamos reféns do nosso nome demasiado português, da falta de influências políticas, ou de um estilo de vida que não se presta às audiências mas, certamente, não ficaremos reféns do nosso nome se não nos virmos reféns da negligência de quem tem a obrigação – moral e funcional - de agir.  

André M. dos Santos

Blog:

http://pardecronicos.blogspot.pt/2013/02/refem-de-um-nome.html

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