Update #17 ·

Documentário "Eu só quero conhecer o Shopping" (filmado no ano 2000) e o "Rolezinho" hoje

Amigos,

125 anos atrás, em 1888 – depois de quase quatro séculos de escravismo – o povo afro-brasileiro (ambos negros e mestiços) finalmente ganhou sua liberdade das plantações de café e açúcar, e, também, das senzalas. Mas isso não significou uma melhoria extraordinária em suas vidas. Na mudança de condição de escravo para trabalhador assalariado, a maioria dos afro-brasileiros foram simplesmente marginalizados. Enquanto isso, visando atrair imigrantes europeus (talvez para "melhorar a raça"), governos sucessivos deram a eles lotes de terra e ajuda econômica––coisa nunca antes feita para o Afro-brasileiro (e até se proibiu fazer). As relações raciais no Brasil não mudaram muito desde então. Para citar o antropólogo Darcy Ribeiro (1995: 222):

"As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos dos antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil. Para seus pais, o negro escravo ou forro, bem como o mulato, eram mera força energética, como um saco de carvão, que desgastado era substituído facilmente por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis. Todos eles são tidos consensualmente como culpados de suas próprias desgraças, explicadas como características da raça e não como resultado da escravidão e da opressão. Essa visão deformada é assimilada também pelos mulatos e até pelos negros que conseguem ascender socialmente, os quais se somam ao contingente branco para discriminar o negro-massa. A nação brasileira, comandada por gente dessa mentalidade, nunca fez nada pela massa negra que a construíra. Negou-lhe a posse de qualquer pedaço de terra para viver e cultivar, de escolas em que pudesse educar seus filhos, e de qualquer ordem de assistência. Só lhes deu, sobejamente, discriminação e repressão."

Tendo isso em mente, gostaria de recomendar-lhes o documentário "Eu só quero conhecer o Shopping", filmado em 2000, que mostra em imagens o que Darcy descreveu em palavras. Mostra que, mesmo depois de passado mais de um século desde a abolição, a nossa sociedade pouco mudou. Mostra, também, de onde provém a crença de muitos políticos e magistrados que, ainda hoje, acreditam merecer mais do que a maioria da população brasileiro pelo trabalho que fazem para a sociedade (ou será mesmo para a sociedade?).

É esse o Brasil que queremos?

Termino essa atualização com a seguinte frase (retirada do documentário): 

“As portas do Rio-Sul não são a mesma coisa quando entro e depois quando eu saio. Ou, quando passo em frente, desempregado. Ou ainda, quando nunca entrei ou sai, mas permaneço, quase sem nada”.

Att,

Vinicius

PS: O jornal Folha de S. Paulo publicou um artigo interessante sobre os "rolezinhos", o qual também recomendo a leitura.

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